O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento definido por padrões persistentes de prejuízo principalmente nas habilidades sociais e possibilidade de presença de comportamentos restritos e repetitivos. Tem início já na primeira infância e pode vir a ter repercussões clinicamente significativas no funcionamento global do indivíduo (familiar, escolar, social e adaptativo). Do ponto de vista científico, falamos de um espectro porque há grande variabilidade na combinação e na intensidade dos sintomas, nas habilidades cognitivas, na linguagem e no grau de suporte necessário ao longo da vida.
Do ponto de vista diagnóstico (DSM-5 e CID-11), o TEA é caracterizado por dois grandes domínios de alteração:
1) Comprometimento nas habilidades sociais em múltiplos contextos, incluindo:
- Dificuldade na reciprocidade socioemocional (como iniciar ou manter conversas, compartilhar interesses, emoções e afetos de forma adequada à idade).
- Prejuízos na comunicação não verbal usada para interação social (contato visual atípico, expressão facial pouco modulada, gestos reduzidos ou pouco integrados à fala).
- Dificuldade na construção, manutenção e compreensão de relacionamentos (desde problemas para fazer amizades até dificuldades para adaptar o comportamento a diferentes contextos sociais).
2) Padrões restritos e repetitivos (de comportamento, interesses ou atividades) associados a inflexibilidade cognitiva, podendo manifestar os seguintes aspectos:
- Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos (balanço de corpo, bater as mãos, alinhar objetos, ecolalia).
- Insistência em repetição de rotina, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (grande desconforto ou sofrimento diante de pequenas mudanças, necessidade de seguir rotinas rígidas).
- Interesses fixos e altamente restritos, de alta intensidade ou foco (preocupação intensa com temas específicos, objetos ou partes de objetos).
- Hipo ou hipersensibilidade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (reação exagerada a sons, texturas, luzes, dor ou temperatura; busca de estímulos sensoriais específicos).
Trata-se de um transtorno que:
- Inicia-se precocemente: sinais costumam aparecer nos primeiros anos de vida, ainda que o diagnóstico formal possa ocorrer mais tarde, quando as demandas sociais excedem a capacidade da criança.
- Apresenta curso crônico, com manifestações ao longo de toda a vida, embora o perfil de habilidades possa se modificar com intervenções adequadas, desenvolvimento e adaptação ambiental.
- Pode associar-se a outras condições: deficiência intelectual, transtornos de linguagem, TDAH, transtornos de ansiedade, depressão, epilepsia, distúrbios do sono e alterações sensoriais, entre outros.
Em termos etiológicos, o TEA é considerado uma condição multifatorial e neurobiológica, com forte componente genético. Estudos apontam:
- Elevada herdabilidade, com múltiplos genes de pequeno efeito e, em alguns casos, variantes raras de maior impacto (como deleções e duplicações cromossômicas).
- Alterações em circuitos neurais envolvidos em integração social, linguagem, processamento sensorial e funções executivas.
- Possível interação entre vulnerabilidades genéticas e fatores ambientais pré e perinatais (por exemplo, complicações obstétricas, prematuridade, exposição a certas condições médicas maternas), sem evidência de causalidade simples e direta.
Do ponto de vista funcional, o diagnóstico de TEA só deve ser estabelecido quando os sintomas:
- São pervasivos (aparecem em mais de um contexto).
- Estão presentes desde o desenvolvimento inicial, mesmo que se tornem mais evidentes posteriormente.
- Gera prejuízo clinicamente significativo em autonomia, desempenho escolar ou laboral, interação social e qualidade de vida.
Por fim, a classificação em níveis de suporte (1, 2 e 3) não define “gravidade” em sentido fixo, mas indica o quanto a pessoa necessita de apoio para manejar as exigências do dia a dia. O TEA, portanto, é uma condição específica de organização do neurodesenvolvimento, que requer compreensão técnica, intervenções estruturadas, suporte familiar e estratégias de inclusão para que cada pessoa possa desenvolver ao máximo suas habilidades e potencialidades.