Patologia em Foco: Epilepsias

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Conceituação – São sintomas de uma função anormal do cérebro. Não são, em si, uma doença, mas sim um conjunto de doenças decorrentes de um estado fisiológico alterado que têm, em comum, crises epilépticas constatadas na ausência de doenças tóxico-metabólicas ou febris.

Dados históricos – As epilepsias são, provavelmente, tão velhas quanto a humanidade. Durante séculos prevaleceram explicações místicas para as causas que as provocavam. O termo epilepsia aparece no séc. XI, significando “ser atacado bruscamente, de surpresa”. Os conhecimentos mais modernos iniciam-se no séc. XIX, a partir do conceito de foco irritativo e da primeira classificação das epilepsias sob uma ótica estritamente médica. Na década de 1940 surge a eletroencefalografia com registro das descargas elétricas, contribuindo para a elucidação dos mecanismos fisiológicos das crises convulsivas.

Etiopatogenia – As epilepsias podem ser decorrentes de lesões cerebrais adquiridas em qualquer momento da vida, pré-natal, peri-natal ou pós-natal (aqui incluindo períodos mais tardios da vida), lesões essas identificadas (epilepsias sintomáticas) ou presumíveis (epilepsias criptogênicas). São as chamadas epilepsias orgânicas. E as decorrentes de uma hiperexcitabilidade cerebral transmitida geneticamente (baixo limiar convulsógino) ou provocadas por alterações metabólicas, bioquímicas ou fisiológicas. São as chamadas epilepsias funcionais.

Divisão das epilepsiasFocais: decorrentes de lesão cerebral (cicatriz, foco irritativo) em um ou mais locais do córtex cerebral. Representam a grande maioria das epilepsias diagnosticadas (sendo que 70% a 80% delas decorrem de lesões localizadas no lobo temporal); e centrencefálicas, quando as crises originam-se no próprio centrencéfalo. As epilepsias focais podem ter manifestações clínicas evoluindo, ou não, para uma convulsão; na hipótese de não ocorrer convulsão generalizada, podem ser constatadas variedades de sintomas e sinais clínicos chamados de “auras” ou “avisos”. A simples presença de uma aura epiléptica já valida o diagnóstico de epilepsia.

Diagnóstico – É basicamente clínico, calcado na descrição da ocorrência. Exames complementares são realizados para confirmar o diagnóstico clínico. Utilizam-se EEG (lembrando que este pode ser normal em aproximadamente 35% dos epilépticos), RX de crânio (que pode identificar calcificações anômalas no cérebro), LCR (que pode identificar, por exemplo, processos infecciosos agudos ou crônicos), TC , mapeamento cerebral, RM, SPECT).

Convulsão epiléptica – Destacamos os seguintes eventos que ocorrem frequentemente no transcurso de uma crise convulsiva generalizada: perda da consciência, contrações musculares tônico-clônicas (trismo), manifestações vegetativas (elevação da PA e da FC, midríase, congestão cutânea, sudorese, pilo ereção, hipersecreção glandular, hipersalivação), relaxamento esfincteriano, quedas com possíveis traumatismos (mais comum nas epilepsias centrencefálicas) e manifestações imediatamente ao pós-crise convulsiva (sonolência, agitação, estada confusional).

Tratamento – O medicamentoso é feito com uso de drogas anticonvulsivantes. Deve-se visar, sempre que possível, a monoterapia. A associação medicamentosa só deve ocorrer quando não se consegue o controle das crises com o uso máximo da dose do medicamento escolhido para a monoterapia. Nas epilepsias parciais, com convulsão ou não, utilizam-se drogas como o fenobarbital, a carbamazepina, a fenitoína, o valproato de sódio, a gabapentina. Nas epilepsias idiopáticas com crises generalizadas utiliza-se mais comumente o valproato, clonazepam e etossuximida (esta, nas crises de ausência). O tratamento cirúrgico pode ter indicação em pacientes selecionados que não responderam ao tratamento medicamentoso (aqui, incluindo o uso de novas drogas que vão sendo disponibilizadas na prática médica).

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Autor:

Dr. José Ricardo de Abreu

Médico Psiquiatra do Instituto Bairral de Psiquiatria